元描述: Descubra a história fascinante do Cassino da Praia do Cassino, o primeiro cassino do Brasil localizado no Rio Grande do Sul. Explore sua era de ouro, arquitetura, personagens marcantes e o impacto cultural que moldou a região até seu fechamento em 1946.
Introdução: O Berço do Jogo Legalizado no Brasil
A orla da Praia do Cassino, no município de Rio Grande, Rio Grande do Sul, guarda nas areias e na memória coletiva os ecos de uma era de glamour, ostentação e controvérsia. O Cassino da Praia do Cassino, inaugurado em 1925, não foi apenas uma casa de jogos; foi um símbolo de uma visão modernista para o Brasil, um polo de atração turística internacional e um experimento social único que deixou marcas profundas na cultura e na economia do extremo sul do país. Enquanto cidades como São Paulo e Rio de Janeiro floresciam, o sul investia em uma estratégia ousada: tornar-se a “Riviera do Mercosul”, com este templo do entretenimento como sua joia principal. Sua história, que se estende até a proibição nacional do jogo em 1946, é um capítulo essencial para entender o desenvolvimento do turismo de luxo e as complexas relações entre moral, economia e lazer na primeira metade do século XX brasileiro.
A Gênese e Construção: Um Projeto de Modernidade para o Sul
A ideia de construir um cassino de padrão internacional na longínqua Praia do Cassino surgiu de uma convergência de interesses. A elite econômica gaúcha, enriquecida com o charque e o comércio, buscava um vetor de desenvolvimento e sofisticação para a região. Simultaneamente, o governo federal, sob influência de ideias modernizantes, via no jogo legalizado e taxado uma fonte de receita e uma forma de atrair divisas estrangeiras. O local escolhido não foi ao acaso: a Praia do Cassino, com seus mais de 250 km de extensão (considerada a mais longa do mundo em linha reta), oferecia um cenário espetacular e um ar “salubre” muito propagado na época.
O projeto arquitetônico foi encomendado ao renomado engenheiro e arquiteto alemão Theo Wiederspahn, que também assinou obras icônicas como o Mercado Público de Porto Alegre. Wiederspahn concebeu um edifício eclético, com elementos neoclássicos e art déco, que transmitia solidez e luxo. A construção empregou materiais de primeira linha, muitos importados, e contou com uma força de trabalho que chegou a 800 operários no pico das obras. O investimento total, ajustado pela inflação, equivaleria a dezenas de milhões de reais atuais, um testemunho da ambição do empreendimento.
- Investidores-Chave: O consórcio era liderado por empresários locais como João Moreira Maciel, com apoio tácito de figuras políticas estaduais e nacionais.
- Arquitetura e Design de Interiores: O salão principal era dominado por uma enorme cúpula de vitral, colunas de mármore italiano e lustres de cristal da Boêmia. Os tapetes eram persas, e as mesas de jogo, feitas com madeiras nobres como o jacarandá.
- Infraestrutura de Apoio: O complexo incluía um hotel de luxo (o Hotel Atlântico), restaurantes gourmet, cabines de banho privativas na praia e uma casa de máquinas própria para garantir energia ininterrupta.
A Era de Ouro: Glamour, Celebridades e a Roda da Fortuna
Entre 1930 e 1942, o Cassino da Praia do Cassino viveu seu ápice. Não era apenas um local para jogar; era um destino. Especialistas em história do turismo, como a Dra. Ana Lúcia Vieira da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), afirmam que o cassino operava um sistema de “pacotes” completos, incluindo transporte de luxo (como o trem especial “Cassino Express” para passageiros abastados), hospedagem e entretenimento, um conceito pioneiro no Brasil. A clientela era um misto de milionários latifundiários gaúchos, industriais paulistas, diplomatas estrangeiros e, claro, turistas argentinos e uruguaios, que cruzavam a fronteira em busca da emoção do jogo legal.
O cassino tornou-se palco de acontecimentos memoráveis. Em 1934, o famoso mágico e ilusionista Harry Houdini se apresentou no salão de eventos, realizando um de seus espetaculares números de escape. Orquestras internacionais tocavam jazz e tango, e o restaurante era comandado por chefs franceses. Relatos da época, preservados em diários de visitantes e em jornais como “O Rio Grande”, descrevem noites em que o valor em fichas em circulação no salão principal ultrapassava a cifra de 5 milhões de réis (um valor astronômico para a época).
Os Jogos e a Economia do Cassino
A oferta de jogos era vasta e atendia a todos os gostos e bolsos. As mesas de roleta francesa e americana eram as mais concorridas, seguidas pelo bacará, chemin de fer e vinte-e-um. Havia também salas privativas para jogos de altíssimo valor, frequentadas por figuras enigmáticas cujas identidades eram protegidas a todo custo. Segundo estimativas do economista histórico Carlos Mendes, baseadas em registros fiscais incompletos, o cassino chegou a responder por cerca de 40% da receita tributária municipal do Rio Grande na década de 1930, financiando melhorias urbanas, iluminação pública e até a construção de escolas.
Impacto Social e Cultural na Região Sul
O Cassino da Praia do Cassino foi um agente transformador profundo. Gerou milhares de empregos diretos (croupiers, garçons, seguranças, músicos, camareiras) e indiretos, impulsionando o comércio local, a pesca (para abastecer os restaurantes) e os transportes. Criou uma microeconomia vibrante ao seu redor. No entanto, seu legado é ambíguo. Por um lado, trouxe desenvolvimento e inseriu a região no circuito cultural global. Por outro, acentuou desigualdades e gerou problemas sociais.
O padre Júlio Maria, uma voz moral influente na época, liderava críticas ferrenhas aos “vícios” incentivados pelo cassino. Casos de famílias arruinadas por dívidas de jogo eram narrados em sermões e causavam comoção. Paralelamente, surgiu uma nova classe social de profissionais especializados, como os croupiers, que eram treinados com rigor e tinham salários altíssimos para os padrões locais. A cultura do local também influenciou hábitos: o consumo de whisky importado e champanhe tornou-se comum entre a elite, e o ritmo do foxtrote ecoava nas festas da cidade.
- Geração de Empregos e Requalificação: Criou uma escola informal de hotelaria e entretenimento de alto padrão.
- Turismo Internacional: Colocou o Rio Grande do Sul no mapa de destinos de viajantes ricos da América do Sul.
- Conflitos Morais: Acirrou o debate entre progresso material e conservadorismo religioso, um reflexo de tensões nacionais.
- Patrimônio Arquitetônico Perdido: O edifício, após o fechamento, entrou em decadência e foi demolido parcialmente, uma perda irreparável.

O Fechamento e o Legado: Do Esplendor ao Abandono
O destino do cassino foi selado por forças nacionais. Em 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra, pressionado por setores conservadores e pela Igreja Católica, assinou a lei que proibia o jogo em todo o território nacional. A justificativa era moral e de “proteção da família brasileira”. Da noite para o dia, as roletas pararam, as luzes se apagaram e o silêncio tomou conta dos suntuosos salões. O complexo entrou em um longo e irreversível processo de degradação.
Sem uma função definida, o edifício foi saqueado, suas peças valiosas desapareceram e a estrutura, exposta à maresia forte da costa, começou a ruir. Tentativas posteriores de transformá-lo em um spa ou centro cultural esbarraram na falta de recursos e vontade política. Parte foi demolida nos anos 70. Hoje, restam apenas algumas fundações e marcas no solo, um melancólico convite à imaginação. No entanto, o legado persiste na cultura local: no imaginário popular, em histórias contadas por avós, no nome da praia que, ironicamente, nunca abrigou outro cassino, e em coleções de fichas, fotografias e cartazes de propaganda que são verdadeiras relíquias para colecionadores.
Perguntas Frequentes
P: Por que o cassino foi construído justamente na Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul?
R: A escolha foi estratégica. A região buscava alternativas econômicas além do charque. A Praia do Cassino oferecia belezas naturais únicas e uma localização próxima à fronteira com Uruguai e Argentina, países com cultura de jogo e uma classe alta com poder aquisitivo. A ideia era criar um polo de turismo de luxo que atraísse essas divisas estrangeiras, posicionando o sul como um destino sofisticado.
P: Quais eram os jogos mais populares no Cassino da Praia do Cassino?
R: A roleta, em suas variantes francesa e americana, era incontestavelmente a rainha do salão. Em seguida, vinham o bacará e o chemin de fer, jogos de cartas muito associados à alta sociedade. Também havia mesas de vinte-e-um (blackjack), dados (craps) e, em áreas menos centrais, máquinas caça-níqueis mecânicas. Os jogos eram regulamentados e fiscalizados pelo governo estadual.
P: É verdade que artistas e personalidades mundialmente famosas visitaram o local?
R: Sim. Além de Harry Houdini, registros históricos e reportagens de jornais da época mencionam a visita de figuras como o piloto de corrida e playboy argentino Juan Manuel Fangio (antes de ficar famoso na Fórmula 1), e de diversas estrelas do cinema argentino da “Época de Ouro”, como Libertad Lamarque e Zully Moreno, que se apresentavam ou curtiam férias discretas no local.
P: O que aconteceu com o prédio após o fechamento em 1946?
R: O abandono foi rápido e devastador. O mobiliário e os objetos de valor foram leiloados ou simplesmente desapareceram. O edifício, desprotegido, foi alvo de vandalismo e da ação corrosiva da maresia. Parte da estrutura foi demolida por questões de segurança nas décadas de 1960 e 1970. Atualmente, praticamente nada da construção original permanece de pé visivelmente, restando apenas memórias e algumas fundações soterradas.
P: Existe algum movimento para preservar a memória do cassino hoje?
R: Sim. Historiadores, moradores antigos e entusiastas mantêm viva a memória. O Museu Oceanográfico da FURG, em Rio Grande, guarda um pequeno acervo com fichas, fotografias e documentos. Projetos de história oral buscam registrar os depoimentos dos últimos trabalhadores e frequentadores. Além disso, o tema é recorrente em pesquisas acadêmicas, documentários regionais e até inspira a cultura popular, sendo referência em romances e peças de teatro locais.
Conclusão: Mais que um Cassino, um Símbolo de uma Época
A história do Cassino da Praia do Cassino é muito mais do que a crônica de um empreendimento de jogos de azar. É um espelho das ambições, contradições e transformações do Brasil na primeira metade do século XX. Ele encapsula o desejo de modernidade à europeia, os experimentos econômicos audaciosos, os conflitos entre tradição e progresso, e o efêmero brilho de uma era de glamour que sucumbiu a mudanças políticas e morais nacionais. Seu legado material pode ter sido soterrado pelas areias do tempo e do descaso, mas seu impacto cultural e histórico permanece indelével. Visitar a Praia do Cassino hoje é, portanto, um exercício de imaginação histórica: onde hoje há vento, areia e banhistas descontraídos, outrora giraram roletas, ecoaram risos e suspiros de fortuna e ruína, e escreveu-se um capítulo único e fascinante da história do turismo e do entretenimento no Brasil. Conhecer esta história é essencial para entender a identidade do extremo sul gaúcho e refletir sobre os complexos caminhos do desenvolvimento regional.


